quarta-feira, 27 de abril de 2011

Filos

Finalmente eu te conheci. Costumava apenas sonhar com você sem saber. Mas desde o dia em que nos encontramos eu soube. Eu soube, minha velha amiga que mesmo antes de saber seu nome você já fazia parte de mim, já habitava o meu subconsciente. Quando eu era pequena você me olhava enquanto eu dormia e fazia planos para mim. E agora escolhi ser sua fiel seguidora e farei com que o mundo a veja como eu vejo.
Sinto que estou cada vez mais perto de tirar o seu véu e ver seu rosto, porém, quando você olhar para mim e chamar meu nome não terá mais volta, a sua energia já vai ter entrado na minha mente completamente e então nós estaremos ligadas para sempre. Minha velha amiga, você não sabe quanto tempo eu esperei pela sua complexidade, mesmo ainda não sabendo que você era destino. Desde a minha infância mandava sinais para mim, me acompanhava quando eu estava sozinha. Minha amiga invisível, eu te vejo em todos os lugares e em todas as pessoas, você é a alma que acompanha todos os seres da terra, deixe-me acompanhá-la, prometo ser dos seus seguidores o mais leal e o mais dedicado. Tudo para conhecer-te, tudo para ver através dessa névoa que ainda nos separa. Eu serei digna, serei sim.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Cálice

Se você fosse meu...
De manhã eu acordaria sozinha, porém quando eu fosse até a cozinha você estaria lá.
A tarde apareceria na janela da minha sala dizendo que sente a minha falta e que me esperaria em casa.
E quando a noite caísse beijaria meus pés e me permitiria dormir no seu ombro.
E juntos assim naquela tarde de domingo, você olha para as gotas de chuva na janela enquanto eu, de olhos fechados, sinto a sua respiração. Mergulhados na profundidade que nós mesmos criamos. No nosso mundo onde nenhum outro ser pode entrar. Em uma casa onde todas as portas e janelas estão fechadas com um piano que só pode ser tocado por um fantasma. Eu não desejaria mais a liberdade se a minha prisão fosse você.
Como os balanços da minha infância, sozinhos no parque esperando que alguém os complete com delicadeza e beleza. Beleza esta que só posso encontrar enquando olho nos seus olhos, beleza esta que alimenta a minha alma com uma substância invisível e , a qual todos os homens já lutaram para conseguir mesmo sem saber. Não sei do que posso chamar. Para alguns é a cura e para outros é a morte, para mim porém, as duas. Assim como é para toda a humanidade.

domingo, 10 de abril de 2011

Estação

E eu estou aqui, esperando por você. Minha mala estava tão pesada que me senti obrigada a colocá-la no chão. Já cansei de olhar o relógio e ver as pessoas passarem, me olharem com pena e depois seguirem em frente. Minha meia desfiou um pouco, mas não me importei. Meu estômago doeu um pouco, mas não me importei. Meus braços estão frios, mas não me importei. Meus dedos doem, mas eu não me importo. Sento, levanto, ando, paro, olho, olho mais uma vez. Perdi a conta de quantos trens já passaram, e de quantas vezes me imaginei com você dentro de um deles. Indo para aquela cidade onde nos conhecemos, acordar com as montanhas e sentir que temos um abrigo no frio, uma alma na chuva. Aquele jardim está nos esperando, aquela velha porta rangendo também, e eu também. Então eu sinto a sua mão, tão quente ir de encontro a minha nuca, agarra meus cabelos e desfaz o meu coque. Abro os olhos, não está mais ali. Não é mais nada, apenas eu e minha mala. E minhas meias, e minhas coisas, e meu casaco, e minha tristeza, e minha esperança e meu cansaço. Olho para o final do corredor e vejo alguém andando, um sobretudo, um cachecol, uma mala, um olhar baixo... Não, não é você. Longos minutos se estendem, longas horas também. E eu luto contra mim mesma, no fato de que você não virá, de que você deve estar tomando café em algum lugar muito longe daqui. Tento pensar em outras coisas na esperança de não adimitir que te esperei e você não veio. Penso nos trilhos, nas cabines, nas crianças chorando, nas famílias se despedindo, no maquineiro, nos bilhetes, no papel, na caneta, no caderno, nas palavras, nos enigmas, nas janelas, nos sofás e quando menos espero alguém chama meu nome de uma forma tão forte e suave que só você consegue fazer.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Felicidade Alternativa

O que sou além de alguém em um divã com um terapeuta invisível? Falando as minhas dores para o vento, com a esperança de que ele as leve embora como o som da minha voz. Essa angústia vai se multiplicando dentro de mim como um câncer toda vez que você se faz ausente nas suas palavras. Porque a culpa sempre será minha, jamais sua. Afinal, criaturas do submundo jamais conseguirão ver a luz. Deveria me desculpar pelas cinzas dos meus cigarros espalhadas pela casa, mas é que quando o céu começa a descolorir eu sinto a necessidade de me descolorir também.
Hoje pela primeira vez no ano, eu vi o céu ficar preto e branco como num filme antigo, e desejei que você estivesse lá para ver comigo e comentar que prefere um dia de sol, depois rir quando eu discordar. Você é o modo mais simples de felicidade que alguém poderia sentir. Seus olhos castanhos tão desarmados e transparentes, invadem com tanta delicadeza os meus que de tão escuros se confundem com a pupila. Melhor que a brisa da primavera e o frio do outono é o seu olhar, o jeito como me abraça e me faz sentir sua, como eu nunca me permiti ser antes de outra pessoa. Você desceu da luz para me buscar no submundo. Não compreendo como um anjo foi olhar para uma simples mortal.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Liberdade Far

Você me lembra um sonho. Aquele onde não existem julgamentos, apenas uma infinita liberdade. Eu costumava me perder em vícios e me prender a pseudo-destinos, como se tivesse medo de mergulhar no vento e ensiná-lo a me guiar, como se o vento da minha vida fosse traiçoeiro o bastante para me fazer infeliz apenas com um sopro. Em meio a essa simplicidade como as coisas acontecem, eu vejo o seu olhar. O que pode ser mais simples, maravilhoso e livre, do que o olhar da pessoa que você ama? É como se eu me encontrasse de olhos fechados e abertos ao mesmo tempo. Ao mesmo tempo que eu te sinto, eu te vejo. Flutuando em uma nuvem, ou voando acima da minha cabeça como um anjo... talvez você seja isso mesmo, um anjo. Anjo que eu quero proteger até de mim mesma.

domingo, 3 de abril de 2011

Jack

Pensei em você durante toda a escuridão. Pensei na maneira como você me intoxica com seu doce veneno de anjo negro. Achava que você viria com a noite e desapareceria com ela, mas me enganei. O sol agora já nasceu e a cidade começou a acordar, mas você continua dentro de mim como a nota mais bela que eu já toquei. Mas eu sei, que você não pode ser nada mais do que uma música para mim, a qual eu posso sentir, porém nunca tocar. Não quero que me conheça, apenas continue alimentando essa ilusão. Nunca vou passar de uma mentira tentando te conquistar. Se ao menos eu pudesse te colocar com o piano debaixo da escada e olhar enquanto você toca uma música que jamais será minha ou enquanto desvia o seu olhar para adimirar o horizonte. Direi que não vejo problema em você ir embora, enquanto as lágrimas do ciúme lavam o meu rosto sujo pelas máscaras que eu uso para não me render ao fato de que eu sempre desejo que você fique e me dê pequenos restos do seu afeto. Nem me lembro mais quantos cigarros eu fumei na esperança de encontrar um novo vício, um vício que não seja humano nem encantador como você. Um vício que me faça esquecer o jeito com que você me olha e fala comigo, como se de fato acreditasse que eu sou muito mais que uma criatura do submundo.

sábado, 2 de abril de 2011

Fotofobia

Nada como ficar sozinha antes das cortinas subirem. Aqui estou eu pronta para ser alguém que eu não sou, como sempre. Tais máscaras já fazem parte de mim, já se assemelham ao meu rosto. É por esse motivo que quando vejo meu reflexo naquele espelho velho e sujo do meu camarim mal iluminado, presto atenção no meu cabelo e na minha maquiagem, porque se eu me atrever a olhar no fundo dos meus olhos já não serei mais forte. Estou condenada a viver na periferia da luz, sempre rondando e observando, o único raio de sol no meu rosto foi o seu olhar e o único sopro de vento frio foi a sua voz. Você é como um anjo, eu como uma pobre mortal devo apenas sonhar com o seu amor. Eu vivo no purgatório enquanto você vive no céu. Você é tão puro, enquanto eu sou uma criatura do sub-mundo condenada a sonhar com a sua atenção enquanto recolho o que outras pessoas deixaram do seu amor.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cinza

O outono chegou mais uma vez. Olho para os meus sapatos no chão molhado porque se eu me atrever a olhar mais acima, vou me perder novamente. Você parece lutar contra o frio do vento, assim como eu luto contra o encontro dos meus olhos com os seus, porque você me rouba para si de uma maneira tão doce que me encanta, me confunde.
É como um apartamento no inverno com piso de madeira. É como o céu sem cor quando chove. É o frio que me eu sinto quando os meus pés tocam o chão de manhã. Tão profundo, tão claro, tão cinza. Como você.